O Mesmo Rio
Saudade
substantivo feminino
sentimento nostálgico de ausência de alguém ou de algo.
Ou então chamem-lhe nostalgia. Ou essa zona cinzenta que ninguém sabe bem definir, mas toda a gente reconhece. E eu que o diga. E eu que o diga que a sinto.
Sinto-a no peito.
Sinto-a nos sorrisos.
Sinto-a nas lágrimas.
Sinto-a nos silêncios e nos gritos.
Sinto-a nas coisas pequenas - aquelas que, se calhar, nem pareciam merecer ser guardadas.
Há duas coisas certas na vida: a morte e os impostos.
Mas começo a achar que há uma terceira - a saudade.
E, honestamente, às vezes, parece mais implacável do que as outras duas.
Aliás, acho que se não for a vida a levar-me ao fim, há de ser a saudade.
Porque a saudade vicia.
E quanto mais dói, mais chama.
Quanto mais dói, mais quero voltar.
Quanto mais volto, mais dói.
Aqui fico - neste ciclo vicioso, como se fosse uma droga - viciado em ver como o tempo leva aquilo que, aos poucos, também me vai levando a mim.
“E por falar em saudade, onde anda você? Onde andam seus olhos?”, escreveu Vinicius de Moraes.
Aqueles olhos que viam o mundo de maneira diferente.
Mais leve.
Mais inocente.
Menos cansada.
Havia qualquer coisa nesse tempo - uma sensação de porta escancarada, como se tudo estivesse prestes a acontecer.
Também havia magia nas coisas mais simples.
No Natal, tudo parecia maior.
As luzes, os cheiros, a espera.
A certeza de que algo especial ia acontecer, mesmo sem saber exatamente o quê.
Nos aniversários, nos dias “importantes”, mas também nos dias banais - havia sempre algo novo, não sei bem explicar, mas pergunto: não há por aí um comprimido qualquer que me faça voltar?
Desde que me disseram que o Pai Natal não era real, nada voltou a ser exatamente igual.
Não por causa dele, coitado, mas por tudo o que vinha com ele.
Agora já sei que nem tudo acontece.
E que nem tudo fica.
Sinto saudade de tantas coisas estúpidas…
Sinto saudade das aulas de Educação Física no Académico.
Sinto saudade dos velhos do Marquês a jogar às cartas.
Sinto saudade de almoçar à pressa em Santa Catarina porque as aulas eram às 14h.
Sinto saudade de chegar a casa sem pensar demasiado no amanhã.
Sinto saudade de um tempo em que o futuro parecia sempre mais longe - e, por isso mesmo, menos urgente.
E, tal como eu sinto saudade destas coisas, espero que quem lê isto também se permita esse exercício:
recordar momentos que, na altura, não pareciam nada, e que agora, são tudo.
Sinto saudade de quando não pensava na saudade.
Porque a saudade é assim - desarrumada.
Cabe em tudo:
numa aula,
num jantar,
num treino,
num dia banal que passou sem deixar marca - até deixar.
Filha da mãe da saudade, que nunca sabe estar quieta.
Há coisas que nem fazem sentido.
Como a COVID. O mundo parado, tudo estranho, e, mesmo assim, recordo esse tempo com a maior das nostalgias.
Pergunto-me: tenho saudades disso… ou de quem eu era naquele tempo?
A resposta parece sempre a mesma.
Não são os momentos. Somos nós dentro deles.
Aliás, ninguém passa no mesmo rio duas vezes. Isso porque já não são as mesmas águas já nem é a mesma pessoa. Também nós nunca encontramos a mesma pessoa duas vezes - nem quando essa pessoa somos nós.
Verdade seja dita, se calhar estou outra vez a viver os “bons velhos tempos”.
Se calhar, daqui a uns anos, vou dizer: “que saudades que tenho de ser estudante universitário”.
Porque então quando é que sabemos?
Quando é que percebemos que estamos exatamente onde um dia vamos querer voltar?
A saudade não é lógica.
Não escolhe só o melhor.
Guarda pedaços - dispersos, imperfeitos - e devolve-os quando quer, quase sempre quando menos esperamos.
Há um cheiro.
Um olhar.
Um instante.
Agora noutra vida - mas ainda nosso, de alguma forma.
E ficam versões de nós a viver
noutros tempos,
noutros sítios,
noutros olhares.
E às vezes, o que mais custa
é saber que já lá estivemos -
e que, mesmo podendo revisitar,
nunca mais podemos realmente voltar.
E nós vamos.
Tentamos voltar lá, vezes sem conta.
E dói.
Mas também nos permite sorrir.
Porque, no fundo, a saudade é a única forma de ainda estarmos, de alguma maneira, com aquilo que já não temos.
Mas há outra forma de olhar para isto.
Se dói assim tanto, é porque valeu a pena.
É porque houve algo na nossa vida que foi suficientemente boa para deixar marca.
Ter saudades também é isso:
prova de que vivemos.
De que estivemos lá.
De que houve momentos que foram, de facto, nossos.
Nem toda a gente pode dizer o mesmo.
Que privilégio em sentir falta de algo que um dia nos fez tão bem.
Constato ainda, numa conversa já de velhinho, que o tempo não abranda - nem quando mais precisamos.
Passa por mim como se eu fosse só mais um instante.
As ruas continuam cheias.
As mesmas árvores vão voltar a florir na primavera, indiferentes a quem já não passa por elas.
Os bancos continuam lá - mas nunca com as mesmas conversas.
No fundo, o mundo não guarda saudades.
Só nós.
Afinal, o que eu espero mesmo é que, um dia,
quando tudo isto for memória,
eu nunca tenha saudades
de ter saudades.


